Civic VTi: A arte de fazer barulho

Cultuado pelos jovens, hot hatch já impressionava pela boa cavalaria original; agora raro nas ruas brasileiras, VTi é sinônimo de alegria

Texto e fotos: Bruno Bocchini

Rápido, estável e de baixíssima manutenção, o Civic VTi foi na década de 90 ícone nas mãos de homens de meia idade que mantinham “espírito jovem” para paquerar as moças. Hoje, o modelo da Honda cativa estudantes universitários, é sempre lembrado nos encontros espalhados pelo Brasil e, mais ainda, se for encontrado em bom estado, é alvo fácil de alterações estéticas e mecânicas.

Lucas Palumbo só não curtiu o hatch japonês no auge porque, enquanto o carro passeava pelas ruas e construía a própria história, ele despontava na barriga da mãe. Hoje com 19 anos, o estudante de engenharia mantém o perfil de um autêntico proprietário do Hondinha e esbanja sorrisos ao ver nas ruas alguém que recorda boas lembranças do hatch. “Reparo que muita gente gosta do VTi. Pessoas elogiam o estado do carro e muitos são mais velhos, com 45 ou 50 anos. Dizem que é raro ver esse modelo nas ruas e contam das memórias que tiveram com os VTIs na época que foram lançados”, garante.

Lenda em sua época

Se a tendência segue para o caminho dos motores 1.0 3-cilindros turbinados, como a Volkswagen projeta com o Up TSi, imagine nos anos 1990 como o Civic VTi conquistou o título de lenda em sua época. O motor 1.6 16V com a tecnologia de comando de válvulas variável V-TEC entregava nada menos que 160 cv. É exatamente a receita que Lucas manteve em seu modelo, mas que recentemente passou a entregar 175 cavalos. “Fiz pequenos upgrades acrescentando um coletor 4x2x1 e Intake Simota. Com isso já subiu a cavalaria e, claro, aumentou a diversão”, conta.

O Civic veio para o Brasil nas versões DX, Si e VTi (hatch), LX e EX (sedã) e EX-S (cupê), trazendo vários motores. O médio da Honda agradava pela confiabilidade, qualidade de construção e boa mecânica, mas o VTi definitivamente caiu no gosto dos entusiastas e acabou se tornando referência. Desembarcando por aqui em 1993, o hot hatch chegou, portanto, pouco antes da fase áurea de alguns esportivos importados que se tornariam mitos como Mitsubishi Eclipse e Golf GTi. Trazia de série airbag duplo, ABS, ar-condicionado, trio elétrico e teto solar.

Com 160 cv a 7.600 rpm, o VTi tinha duas personalidades. Até a metade do conta-giros era um carro normal, pacato. Mas, acima dos 5.000 rpm, quando a maioria dos motores já começava a chegar ao limite, o japonês colocava em ação seu comando “bravo” e girava bonito até 8.200 rpm – o conta-giros tinha faixa vermelha nas 8.500 rpm. Era algo de cinema!

O Civic VTi de quinta geração deixou de ser importado em 1995, mas em pouco tempo a Honda já começava a trazer a sexta geração, que teve o visual ligeiramente modificado e ainda havia disponível uma nova configuração para o motor 1.6 16V com impressionantes 170 cv de potência. Assim que a fábrica da Honda em Sumaré (SP) ficou pronta, em 1997, a marca mudava o portfólio, produzindo apenas o Civic Sedan e interrompendo a importação do cupê e do VTi. “O meu VTi é 1996/1997, pegou essa última fase já com um desenho um pouco mais moderno para a época comparando à primeira geração. No momento tenho apenas o Civic. Comprei um Subaru Impreza 2.0 manual 2010 no começo de 2014 e tive ele até a troca no VTi em junho deste ano. Era um ótimo carro, porém sempre faltou algo. E o VTi preencheu essa minha expectativa”, comenta.

Lucas mora em São Paulo, mas estuda no Centro Universitário da FEI em São Bernardo do Campo (SP). Ele evita rodar com o Hondinha no dia a dia para manter as condições do carro, mas confessa que seus amigos endoidam com o modelo. “Uso pouco no dia a dia. Tento evitar para preservar o carro, já que as ruas da capital não ajudam muito. Diversos amigos que andaram a primeira vez comigo no carro amaram e toda vez querem comprar um também. Pedem para andar toda hora, quando brinco que vou vender o carro eles entram em pânico e imploram para que eu não venda”, brinca.

Jovem e com “filosofia mais antiga para carros”, Lucas teve um incentivador desde a infância. Prova de que você pode até torcer para um time de futebol quando criança e de repente mudar na adolescência, mas a paixão por automóveis dificilmente desfaz o caminho. “Sou apaixonado por carros desde que nasci. Meu pai era piloto de testes e desenvolvia a parte mecânica para a GM e outras marcas. Ele também foi piloto de corrida Stock Car, agradeço a ele a influência que tive”, reflete.

Apesar das credenciais mecânicas, o VTi nunca teve design chamativo. Pelo contrário: não fossem suas rodas com desenho exclusivo, poderia até passar despercebido no trânsito. Mas definitivamente ele não era um Civic comum: de acordo com a Honda, acelerava de 0 a 100 km/h em 7,3 segundos e alcançava velocidade máxima de 220 km/h. O VTi de Lucas manteve originalidade estética com alterações pontuais. “Não gosto de tuning, gosto de modificações leves no visual, no caso do Civic não acho que teria que melhorar em nada, gosto do design original, no máximo curto o aerofólio e spoiler dianteiro com a grade do Civic Type-R japonês”, opina.

Avesso ao tuning e, portanto, priorizando a mecânica, Lucas também garante que pensa em alterar mais a estrutura sob o capô. “Prefiro estética funcional, aliviar peso e, sendo assim, prefiro uma boa preparação do motor, penso em colocar um turbo, mas ainda estou com dúvidas. Tenho um som básico e agradável no Civic, apenas para curtir mesmo. Gosto de ouvir rock e música eletrônica, depende do momento. Mas meu som preferido é o que sai do escape”, pontua.

Os fãs do Civic esportivo ficaram órfãos até 2007, quando Honda lançou o sedã Si com motor 2.0 16V de 192 cv e o mesmo conceito de alto giro do saudoso VTi. Agora temos o Civic Si 2015 como cupê vindo dos EUA, mas para Lucas entre o disse, não disse, ele só quer que o VTi nunca seja levado a mal e esquecido. “Quem nunca andou de VTi, quando anda também se assusta e solta bons risos depois que o V-TEC abre e sente aquela puxada, é uma sensação única”, diz. Japoneses sabem fazer barulho…